Por Luciano Klein
Uma faceta pouco conhecida da vida do Dr.
Adolfo Bezerra de Menezes (1831-1900) é a de suas investigações sobre casos
insólitos ocorridos no Brasil Oitocentista. O pioneirismo dessas pesquisas,
particularmente em casos relacionados à fenomenologia mediúnica nacional, pode
ser bem ilustrado por meio de um artigo publicado no Reformador, órgão
informativo da Federação Espírita Brasileira (FEB), em 15 de novembro de 1890.
Um ano após sua primeira experiência à frente
da Casa Mater do Espiritismo no Brasil (1889-1890) e empregando, como
habitualmente fazia, pseudônimos ou abreviaturas, levantou, por esse artigo,
dados sobre um caso de bicorporeidade acontecido no Rio de Janeiro.
Assinando o texto com as iniciais A. B. (Adolfo
Bezerra), nessa época ele fazia a leitura, em francês, dos originais de Obras
Póstumas. Reporta-se, então, ao fenômeno da bicorporeidade, analisado por
Kardec, e a muitos casos verificados mundialmente.
Assinala que, até então, não tinha conhecimento
de nenhum outro caso de bicorporeidade ou de escrita direta observado em nosso
país, algo que, aliás, lhe causava estranheza. Em seguida, narra episódio que
teria sido talvez o primeiro registrado no Brasil: um caso bem averiguado de
bicorporeidade.
Diz A. B. que um estimado amigo, identificado
como Comendador Macedo, que gozava de merecida consideração local, relatou-lhe
que, após o desenlace da esposa, resolveu recolher-se na fazenda de um
conhecido, na companhia de sua irmã e da ex-sogra.
Pelas pesquisas que fizemos, descobrimos que
esse amigo de Bezerra era o Comendador João Evangelista de Araújo Macedo
(1833-1902), republicano convicto, diretor do Lazareto da Ilha Grande, em 1886,
e sócio de Bezerra, em 1890, na Sociedade Anônima Salina Nacional. Era casado
com sua sobrinha Maria Guilhermina de Goulart Macedo, desencarnada em 1882.
Guilhermina era filha de Maria Amália Macedo Cabral, irmã do Comendador Macedo.
João Evangelista desencarnou no Rio de Janeiro, em 1º de setembro de 1902.
Entretido em leituras para aliviar a dor da
separação da companheira, o Comendador Macedo testemunhou um inabitual
fenômeno. Certo dia, por volta das 17h, quando se encontrava sozinho na sala de
visitas, deixou de ler, devido ao cansaço, buscando uma janela para
recostar-se, com as costas para o lado de fora. Enquanto meditava sobre a
leitura, viu a mucama de sua irmã entrar na sala, abrir a porta que dava para o
quarto da senhora, que se encontrava ocupada na sala de jantar, e, tirando uma
chave, passar para o lado de dentro do quarto, trancando-se.
Entrando, em seguida, na sala onde estava sua
irmã, deparou-se com a criada que, minutos antes, vira trancar-se no quarto,
que não possuía porta de saída, senão pela própria sala. Perplexo, interrogou a
mucama se não fora ela quem entrara no quarto. Respondendo-lhe, a jovem disse
que há muito não saíra do pé da senhora, o que foi por esta confirmado.
Narra A. B. que o Comendador quis supor que o
que lhe parecera ver não passava de uma criação de sua imaginação; mas
lembrava-se de ter circunstâncias tão particulares, como de ter ouvido o ranger
da chave na fechadura, de haver a mucama trocado aquela chave de fora para
dentro e, a vista disto, não pôde aceitar aquela hipótese.
Comenta Bezerra que o amigo, por desconhecer o
fenômeno, teve grande abalo moral, nada obstante, após a explicação deste pelo
Espiritismo, tudo se encaixou. Grande, pois, foi sua satisfação, quando agora,
depois de muitos anos, ouvindo falar nos casos de bicorporeidade […] que se
encontravam narrados em Obras Póstumas*, identificou o fato como um desses
casos.
Bezerra pediu ao Comendador autorização para a
publicação do episódio, fazendo-o constar no rol de suas pesquisas.
*Aparição de pessoas vivas, Bicorporeidade
A faculdade, que a alma possui de emancipar-se
e de desprender-se do corpo durante a vida pode dar lugar a fenômenos análogos
aos que os Espíritos desencarnados produzem. Enquanto o corpo se acha
mergulhado em sono, o Espírito, transportando-se a diversos lugares, pode
tornar-se visível e aparecer sob forma vaporosa, quer em sonho, quer em estado
de vigília. Pode igualmente apresentar-se sob forma tangível, ou, pelo menos,
com uma aparência tão idêntica à realidade, que possível se torna a muitas
pessoas estar com a verdade, ao afirmarem tê-lo visto ao mesmo tempo em dois
pontos diversos. Ele, com efeito, estava em ambos, mas apenas num se achava o
corpo verdadeiro, achando-se no outro o Espírito. Foi este fenômeno, aliás
muito raro, que deu origem à crença nos homens duplos e que se denomina de
bicorporiedade.
Por muito extraordinário que seja, tal fenômeno
como todos os outros, se compreende na ordem dos fenômenos naturais, pois que
decorre das propriedades do perispírito e de uma lei natural.
Fonte: https://www.mundoespirita.com.br


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