Por: Astolfo O. de Oliveira Filho
O pensamento de que viemos à Terra para passear
é um dos grandes equívocos que temos cometido ao longo dos séculos, cujas
consequências podem ser devastadoras, fato que muitos só perceberão quando
retornarem ao plano de onde viemos para a atual existência.
Todo mundo sabe o que é uma corrente, que é, em
verdade, um conjunto de elos rígidos ou semirrígidos interligados. As inúmeras
existências corporais que compõem a vida de uma pessoa são como os elos de uma
corrente e, portanto, interligadas, o que faz com que o nosso passado tenha
influência sobre o presente – e este sobre nossas existências seguintes.
Se fôssemos educados desde cedo para
compreender isso, não nos seria difícil entender por que na Terra há tanta
maldade, tanto sofrimento, tantas doenças, guerras, injustiças, desigualdades,
desentendimentos, atos de corrupção, criminalidade, preconceitos...
Santo Agostinho (espírito), um dos Espíritos
superiores que participaram ativamente da obra de codificação do Espiritismo,
examina um desses problemas numa página intitulada “O mal e o remédio”,
publicada no cap. 5 do O Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, o
codificador da doutrina espírita.
Escreveu o iluminado instrutor espiritual:
O mal e o remédio
Será a Terra um lugar de gozo, um paraíso de
delícias?
Já não ressoa mais aos vossos ouvidos a voz do
profeta? Não proclamou ele que haveria prantos e ranger de dentes para os que
nascessem nesse vale de dores?
Esperai, pois, todos vós que aí viveis,
causticantes lágrimas e amargo sofrer e, por mais agudas e profundas sejam as
vossas dores, volvei o olhar para o Céu e bendizei do Senhor por ter querido
experimentar-vos... Ó homens! dar-se-á não reconheçais o poder do vosso Senhor,
senão quando ele vos haja curado as chagas do corpo e coroado de beatitude e
ventura os vossos dias? Dar-se-á não reconheçais o seu amor, senão quando vos
tenha adornado o corpo de todas as glórias e lhe haja restituído o brilho e a brancura?
Imitai aquele que vos foi dado para exemplo.
Tendo chegado ao último grau da abjeção e da miséria, deitado sobre uma
estrumeira, disse ele a Deus: “Senhor, conheci todos os deleites da opulência e
me reduzistes à mais absoluta miséria; obrigado, obrigado, meu Deus, por
haverdes querido experimentar o vosso servo!”
Até quando os vossos olhares se deterão nos
horizontes que a morte limita? Quando, afinal, vossa alma se decidirá a
lançar-se para além dos limites de um túmulo? Houvésseis de chorar e sofrer a
vida inteira, que seria isso, a par da eterna glória reservada ao que tenha
sofrido a prova com fé, amor e resignação? Buscai consolações para os vossos
males no porvir que Deus vos prepara e procurai-lhe a causa no passado. E vós,
que mais sofreis, considerai-vos os afortunados da Terra.
Como desencarnados, quando pairáveis no espaço,
escolhestes as vossas provas, julgando-vos bastante fortes para as suportar.
Por que agora murmurar? Vós, que pedistes a riqueza e a glória, queríeis
sustentar luta com a tentação e vencê-la. Vós, que pedistes para lutar de corpo
e espírito contra o mal moral e físico, sabíeis que quanto mais forte fosse a
prova, tanto mais gloriosa a vitória e que, se triunfásseis, embora devesse o
vosso corpo parar numa estrumeira, dele, ao morrer, se desprenderia uma alma de
rutilante alvura e purificada pelo batismo da expiação e do sofrimento.
Que remédio, então, prescrever aos atacados de
obsessões cruéis e de cruciantes males? Só um é infalível: a fé, o apelo ao
Céu. Se, na maior acerbidade dos vossos sofrimentos, entoardes hinos ao Senhor,
o anjo, à vossa cabeceira, com a mão vos apontará o sinal da salvação e o lugar
que um dia ocupareis... A fé é o remédio seguro do sofrimento; mostra sempre os
horizontes do infinito diante dos quais se esvaem os poucos dias brumosos do
presente. Não nos pergunteis, portanto, qual o remédio para curar tal úlcera ou
tal chaga, para tal tentação ou tal prova. Lembrai-vos de que aquele que crê é
forte pelo remédio da fé e que aquele que duvida um instante da sua eficácia é
imediatamente punido, porque logo sente as pungitivas angústias da aflição.
O Senhor pôs o seu selo em todos os que nele
creem. O Cristo vos disse que com a fé se transportam montanhas e eu vos digo
que aquele que sofre e tem a fé por amparo ficará sob a sua égide e não mais
sofrerá. Os momentos das mais fortes dores lhe serão as primeiras notas alegres
da eternidade. Sua alma se desprenderá de tal maneira do corpo que, enquanto se
estorcer em convulsões, ela planará nas regiões celestes, entoando, com os
anjos, hinos de reconhecimento e de glória ao Senhor.
Ditosos os que sofrem e choram! Alegres estejam
suas almas, porque Deus as cumulará de bem-aventuranças. – Santo Agostinho.
Paris, 1863. (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V, item 19.)
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