180 anos de Léon Denis


OUÇA O ARTIGO

Por Maria Helena Marcon

Em janeiro de 2026, comemoramos 180 anos do nascimento de Léon Denis (1846-1927), a alma grande e luminosa que se tornou o apóstolo incansável do Espiritismo. Sua vida, dedicada à causa da imortalidade e do progresso moral, é um farol que continua a guiar milhões de corações.

Nascido em Foug, chegou a Tours com 16 anos, adotando-a como seu lar. Desde cedo, precisou colaborar com o sustento doméstico, recaindo sobre seus ombros boa parte das despesas de manutenção.

Obrigado durante o dia a ganhar o meu pão e o dos meus velhos pais, disse ele, dediquei muitas noites ao estudo, a fim de completar minha ligeira bagagem de conhecimentos. Veio daí o enfraquecimento prematuro da minha vista.

Denis foi o principal continuador e expoente da Doutrina Espírita no mundo. Ele assumiu a tarefa monumental de defender, aprofundar e divulgar o Espiritismo em um período crucial de sua consolidação. Sua fé inabalável, alicerçada na razão e na experiência, conferiu-lhe a autoridade moral e intelectual necessária para a missão de apóstolo.

Sua oratória era notável. Com uma voz melodiosa e uma eloquência límpida, ele transportava seus ouvintes para as esferas da verdade e do consolo. Suas conferências eram verdadeiros sermões sobre a vida espiritual, a justiça divina e o destino humano. Ele combinava a profundidade filosófica com a simplicidade evangélica, transformando auditórios em escolas de esperança e moralidade.

Léon Denis foi contemporâneo de Allan Kardec, e conheceu O Livro dos Espíritos em sua juventude.

Eu tinha 18 anos quando li O Livro dos Espíritos e isso foi, para mim, uma súbita iluminação de todo o meu ser. Eu não exigi provas a uma doutrina que respondia a todas as questões, resolvia todos os problemas de maneira a satisfazer a razão e a consciência, manifestou-se ele.

Apesar de seu profundo respeito e admiração pelo Codificador, seus encontros pessoais foram raros e breves.

Um dos mais notáveis ocorreu em Tours, em 1867.  Kardec viajava pela França para divulgar a Doutrina. Uma reunião que deveria ser realizada em um salão alugado foi formalmente proibida pela prefeitura local. Coube a Léon Denis, então jovem adepto, ficar na porta do local inicialmente planejado para avisar os participantes e dirigi-los a uma nova localização: os jardins da casa do anfitrião do Codificador.

Essa função, embora prática, demonstrou o engajamento inicial de Denis na causa e a profunda deferência que ele tinha por Kardec.

No dia seguinte, quando fui levar-lhe os meus cumprimentos, narra Denis, encontrei-o nesse mesmo jardim, trepado num escabelo, colhendo cerejas para a Srª Allan Kardec. Esta cena bucólica cheia de encanto, contrastava com a gravidade dos personagens. Mais tarde encontrei-o em Bonneval, Eure-et-Loire onde fora participar de um meeting espírita que reunia todos os adeptos da região. Finalmente em Paris, ao curso de minhas viagens, pude trocar ideias com ele sobre a causa que nos era tão cara.2

Jerônimo de Praga se apresentou como seu guia, em uma sessão realizada em 2 de novembro de 1882. Denis tinha 36 anos. Eram dez pessoas na reunião, em volta de uma mesa de quatro pés.

Serviram de médiuns dois homens e uma mulher, e as palavras do benfeitor espiritual foram: Deus é bom! Que sobre vós se espalhe a sua bênção como o benéfico orvalho, pois as consolações celestes não se distribuem senão aos que procuram a justiça. Lutei na arena terrestre, mas desigual era a luta. Sucumbi, porém das minhas cinzas surgiram defensores numerosos; marcharam pela estrada que eu pratiquei. São todos meus filhos muito amados.2

Em outra comunicação, datada de 1º de março de 1883, o mesmo Espírito tornaria a dizer: Caminha, meu filho, no sendeiro aberto diante de ti; eu caminho atrás para te sustentar.2

A contribuição de Denis transcende a simples divulgação. Ele introduziu um elemento de profunda poesia à filosofia espírita, enfatizando a importância do esforço moral e da caridade como caminhos para a evolução. Sua pena, inspirada, descreveu o além-túmulo com riqueza de detalhes e grande sentimento, aliviando o medo da morte e fortalecendo a certeza da vida.

O Congresso Espírita Internacional, em 1925, realizado em Paris, de 6 a 13 de setembro, foi um marco crucial e o último grande evento do qual Léon Denis participou, pouco antes da sua desencarnação em 1927.

Aos 79 anos, com a saúde frágil e a cegueira progressiva, Denis foi presidente de honra do Congresso. Sua presença, a princípio, foi hesitante, mas ele acabou cedendo aos pedidos dos organizadores e, notavelmente, a inspirações do próprio Espírito Allan Kardec.

Denis escreveu que, durante o evento, sentiu o apoio fluídico e a eficácia das inspirações de Kardec. Sua participação foi essencial. Ele utilizou sua eloquência e autoridade para ratificar os princípios espíritas em meio a debates com teosofistas, ocultistas e outras correntes espiritualistas.

O Congresso reuniu representantes de vinte e dois países, incluindo personalidades como Sir Arthur Conan Doyle, e serviu como  testamento público de Léon Denis sobre a fidelidade à obra de Allan Kardec e seu papel como o consolidador da Terceira Revelação.

Referências:

1 LUCE, Gaston. Léon Denis. Vida e Obra. São Paulo: EDICEL, 1978. pt. 1, cap. I. Em Tours.

2 BAUMARD, Claire. Léon Denis na intimidade. Matão: O Clarim, 1982. Prefácio explicativo de Wallace Leal V. Rodrigues.

COMPARTILHE ESSE POST COM SEUS CONTATOS



Postar um comentário

0 Comentários